sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Je suis...

Clarice Lispector, Tentativa de ser alegre, 1975
Ele queria ter a certeza
De que vai dar certo.
Algum dia.
Algo que ele fez...
faz.
Como 2+2=4
Mas como não se fala em ciência exata,
fica a esperar.
Algo que possa satisfazê-lo.
Plenamente.
Profundamente.
Intensamente.
A fraqueza,
que vez ou outra visita-o...
Será os três copos de suco de maracujá?
Agregado à falta de algo...
alguém...
- Sinceramente, acho que deverias volver.
- Sinceramente, acho que não.
- Razões?
- Várias.
- O que vai fazer então?
- Eu preciso andar.
O velho andarilho começa então,
uma peregrinação
dentro de si.
A busca de um resquício de alma,
No auge de sua jovem velha vida
Ele busca.
Enquanto continua
a brincar com palavras.
por Le Clown De Théâtre

sábado, 18 de agosto de 2007

Un peu rapide

Paul Klee, Angelus Novus (1920)
Um pouco de sal.
Mais rápido,
vasculha lembranças.
Diga oi.
- Oi.
- Olá moço, como vai você?
Espantoso.
Lembre o que ela te fez.
- Estou ótimo.
Sarcasmo.
Ela sabe.
- Então, como vai na faculdade?
Não seja sincero.
- Horrível. Não tenho tempo para mais nada a não ser ler livros ridículos
sobre uma sociedade hipócrita e é claro, fumar um cigarro de tempos em tempos.
Longo demais.
Seja rápido e impiedoso.
- Hmmm, pensei que estivesse gostando. Olha... eu...
Não permita isso!
- Tem um cigarro?
Pergunta certa na hora perfeita.
Ela está surpresa!
- Tenho sim. Aqui está.
Fume e não olhe diretamente nos olhos.
- Olha, eu realmente não queria causá-lo problemas.
Pausa para um trago.
- Podemos ser apenas amigos?
Resista!
- Claro que sim.
Mentira!
Não quer mais minhas valiosas dicas?
Ótimo.
Silêncio.
- Hmm. Ok. Então... você me desculpa?
{Abriu o mais profundo e sombrio quarto de sua mente.
Fumou o último trago.
Jogou o cigarro no chão.
Olhou diretamente naqueles olhos escuros
que tentavam escapar atrás de um óculos.
Mais silêncio.
Ela continuava ali, sem mover um músculo.
Apenas...
Fitava-o.
Com um olhar definitivamente aterrorizado.
Estava perplexa.
Um pouco de sinceridade.}
- Não. Ainda não.

por Le Clown De Théâtre

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Solitude

Henri de Toulouse-Lautrec, Seule (1896)
Analisei friamente o semblante.
Não estava quente.
Então conclui com base nos porões escuros da mente humana,
que estava diante de um ser iluminado!
Pois é... inesperável reação viciosa.
Deixou de ser imagem.
Realidade obscura de uma mente sedada,
transmutada, mutilada, amaldiçoada.
Jurou de pés juntos,
que nunca mais iria voltar.
Acreditar no silêncio, disse.
Silêncio.
Após os 15 segundos da maravilhosa experiência,
tudo volta ao ''normal''.
O sol, a dor, o branco,
azul.
Gigantes brincam, pensou.
Vazio.
Desespero.
Preto e branco.
Solidão.
por Le Clown De Théâtre


terça-feira, 7 de agosto de 2007

La fin des jours

Carlos Schwabe, La mort du fossoyeur

Palavras soltas.
Sem nexo.
E ele lá,
sentado.
Esperando algo chegar.
E o vento traz o aviso
como uma leve brisa:
''Levanta-te, oh ser amaldiçoado!''
Perambula pela ruacomo o pior das criaturas.
Sem sentir, ouvir, digerir.
Transformado em um fantasma,
Ele roda a cidade
procurando algo.
Algo que nem ele mesmo sabe o que é(ou será).
Algo inexistente no seu vocabulário,
pois ele nunca...
nunca sentiu, ouviu, digeriu.
Não aquilo que busca.
E ele segue, nas tardes infernais
e noites frias que tanto admira.
Buscando algo que parece nunca encontrar.
Ele acha a busca,
apesar de sofrer,
hilária.
Pois pensa em sorrir,
tentando achar o que procura.
Tarde da noite,
o céu é testemunha.
Céu, fantasmas, demônios, caos.
Anjos da noite que como ele,
buscam algo desconhecido.
É o fim dos dias, dizem.

domingo, 5 de agosto de 2007

Completais moi


Claude Monet - Impression, soleil levant (1872)
Aqueles segundos
que antecedem tudo
Esses sim, Perfeitos algozes.
Decisão,
Indecisão.
Olhou para o lado,
o suor,
o cheiro do perfume floral.
A agonia consegue finalmente
se misturar ao desespero.
Os dois corpos ali,
quentes e exalando desejo.
Uma intoxicação natural.
Um querendo mais que o outro.
Um desejo não tão desejado.
Então, percebe que não gosta.
Não tolera aquilo,
com esse gosto amargo.
Sente-se repugnante.
E quando deita,
lembra de tudo.
E continua sentindo o agonizante vazio.
Sente-se incompleto.
Mesmo depois de tudo.
Deseja morrer, matar, se matar.
Mas não vem.
Pois noite após noite,
continua queimando a vida.
De cigarro a cigarro.
Mas no final,
o desejo real:
Complete-me.
por Le Clown De Théâtre

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Douleur

Edvard Munch, Skrik (1893)
Você.
minha dor.
meu amor.
meu rancor.
Dor que insiste em me assombrar.
Eternamente.
O horror de te ver
e não sorrir como você...
com você.
Não aproveitar esse momento teu.
Por quê ?
Por que não deixas sorrir contigo?
E se deixar...
Será que consigo?
Só posso sentir,
E não a ter
aqui, num cantinho só nosso.
Dói.
por Le Clown De Théâtre

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Espoir ( Von )

Gustav Klimt, Die Hoffnun (1903)
Anos por vir.
Luzes cegantes futuras,
ou não.
Certezas de frutas sem gosto.
Mas esse aroma...
Contagiante!
Misterioso!
Vivo entorpecido com a esperança.
Somados a medos incontraláveis.
'' E agora, meu chapa?''
Agora...
Agora?
Bem, agora...
Furtivamente acho uma fuga.
Como um verdadeiro larápio de sonhos.
Chances descartadas numa lata de lixo.
Possivelmente feridos por uma razão incontrolável.
E no fim,
A você, resta o quê mesmo?
Espólios de mais uma batalha vencida?
Odores que a elevam ao patamar de uma deusa?
A mim...
A mim só restam cheiros fétidos de mais uma derrota.
O constante sabor amargo.
A alcunha de perdedor.
O silêncio estreitamente ligado à indiferença dos meus atos heróicos,
ininteligíveis aos teus olhos.
O eterno carinho e amor por você,
E a vontade incontrolável de estar ao teu lado.
Oh vencedora.
Oh esmagadora máquina semi-humana.
Que consegue trazer à tona
Os mais profundos sentimentos dualistas.
Que hora amam,
Hora desaprovam teu ser.
Desaprovam esse teu ar misterioso.
A incerteza sobre o que pensas sobre mim
Consegue deixar esse pobre mortal ávido por sentimentos puros
Louco.
Contudo, no fim da noite,
Quando o caminho parece estar no fim,
Sons, risos teus que alegram o ar.
Imagens suas alegremente postadas em um quadro
Emoldurado em luzes nunca vistas.
Que representam a beleza mais misteriosa.
Que fazem o pobre mortal ferido eternamente,
Abrir o mais belo sorriso.
E ter forças para continuar tentando.
A pura e completa representação da
Esperança.
por Le Clown De Théâtre




Lumière et Amour

Flor, dor, cor. Cor não. Não agora.
Primeiro, cores ofuscas, desculpas, sujas, sombrias.
Flores dilaceradas por uma escuridão.
Dor, mil vezes dor. A dor pior do que a própria dor.
Escuridão boa sim, pensamentos obscuros, teses infames porém fundáveis.
Então, depois, Luz.
Luz...
Claridade que escurece a visão primeiramente.
Confunde. Humilha.
Depois arrebata, apaixona.
Ilumina o dia e noite
E até a mente mais escura, frágil, debilitada, suja.
E se... Luz igual a dor ?
E se... Luz igual a flor?
E se... Luz igual a cor?
Dor, amor, cor, flor....
Amo.

por Le Clown De Théâtre