sábado, 25 de outubro de 2008

A Saidêra, por favor!

Sabe os cadaços desamarrados?
Começo a entender como amarrá-los de forma firme.
Precisei de mais uma dose pra entender.
Burrice.
Ou preguiça?
Admito, agora.
Mas daí eu vou.
Já até pedi a saidêra (a primeira).
Vou sorrindo.
Pois os morros azuis já estão a esperar minha chegada.

Le Clown De Théâtre

domingo, 5 de outubro de 2008

Saudade




Fiz uma casinha branca
Lá no pé da serra
Prá nós dois morar
Fica perto da barranca
Do Rio Paraná
A paisagem é uma beleza
Eu tenho certeza
Você vai gostar
Fiz uma capela
Bem do lado da janela
Prá nós dois rezar
Quando for dia de festa
Você veste o seu vestido de algodão
Quebro meu chapéu na testa
Para arrematar as coisas do leilão
Satisfeito eu vou levar
Você de braço dado
Atrás da procissão
Vou com meu terno riscado
Uma flor do lado e meu chapéu na mão

(Elpídio dos Santos)


Ah, Morro Azul...
Sem palavras.
Visões.
Impressões.

Saudade.

Le Clown De Théâtre

terça-feira, 9 de setembro de 2008

O doce sabor do nada

Acordar.
Tomar banho.
Tomar café.
Não escolher a roupa.
Trabalho.
Cansaço.
Suor.
Calor.
Almoço.
Merda, esqueci de cortar os tomates.
Mais calor.
Mais trabalho.
Dignificante.
Sem sabor.
Pêra.
Aula.
Vento sul.
Jogo nele palavras soltas.
Pois sem nexo, sem gosto, sem almoço...
sem osso...
Casa.
Pensamentos inúteis, sem vento para aquecê-los.
Doença.

Outro dia.
Mudam os agentes,
sobram os restos.
O nada e o tudo.
Sem valor, sem dor, sem graça.
Patinetes, férias, outono.
Outono?
Sem folhas vermelhas caídas.
Indolor, faça-me um favor:
Dê-me o troco, pois vivo de sobras.

Le Clown De Théâtre

segunda-feira, 23 de junho de 2008

A cegueira surda

Eu vejo
a sutil onda do ar;
o carro estacionado na porta do meu apartamento;
o vidro quebrado da porta da padaria;
o tumor maligno no pulmão esquerdo;
o desaparecimento do som do teu olhar;
a ausência do cheiro inconfundível do (seu) cabelo;
o borbulhar do aquário;
cenas de filmes que já vi
e daqueles que sonho todas as noites;
a chuva cair;
a dor aparecer nas noites de domingo.
Eu vejo sem ver.
Eu canto sem saber a letra.
Eu sou morto pela ausência.

Le Clown De Théâtre

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Sacred Sick Poem About Darkness

Começa assim devagar,
calmo como uma madrugada fria.
Depois vem os metais, sons que acalmam e conseguem me satisfazer.
O ambiente é próprio e comum.
O medo de mudar fica aqui, do lado da minha cama bagunçada, cheia de trapos velhos.
Olhando para uma mesa em cacos, escuto o piano longe.
Perto.
Perto do coração que ama alucinadamente,
um pouco secretamente, mas aparentemente na dose certa.
Agora, como sempre, as madrugadas me deprimem. Sempre foi a fuga da manhã mesmo, ora bolas.
E esse quarto que tanto reflete minha mente, meu ser...
O quarto sou eu.
Bagunçado, cheio de idéias e escuro de dia...claro a noite.
Claro como a depressão pós-nascimento de um garoto ansioso.
Rápido como o pensamento do ancião.
Manchado, rasgado, roubado,
sigo a existência sóbria temendo o amanhã, o hoje e o sempre.
E nem mesmo o dó, o ré e o mi conseguem me motivar.
Oh céus.
Vivo hoje, respiro amanhã e mastigo ontem por uma única razão.
Então, rasgando esse texto moribundo e matando esse poeta que vos escreve:
nunca irão entender a escuridão do quarto.
Nem eu.


Le Clown De Théâtre

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Olhos severos, amor eterno

Luz dos meus olhos,
tu és dona do meu corpo e alma.
Soberana do meu ser,rainha do meu pensar,
arquiteta do meu sonhar.
Tu és senhora da minha vida,
e com poesia,
tento demonstrar todo o meu amor.
Tu, e só tu, comanda esse naco de carne ambulante
que é perdidamente apaixonado por você.
E só você controla essa mente turbulenta,
com maestria e perfeição.
Sendo portanto,
a dona do meu coração.


Le Clown De Théâtre

sábado, 29 de março de 2008

A viagem da Rainha de Vestidinho Xadrez e o Lamento do Bobo da Corte

Até parece que perdi meu olhar
quando ela partiu dizendo um ''até logo'' choroso.
Um ''tevejoembrevemeuamor'' medroso e doloroso,
que flechou meu coração já apaixonado,
mergulhado em amores que nunca tive e que,
por algum motivo
recebi.
Então, quando a vi dobrando a esquina pela última vez,
corri e entreguei meu braço.
-Pra você nunca esquecer de mim.
Então a vi ir embora pela segunda vez.
Dias depois, a sensação de mutilação era evidente.
Sem saber, fui tragado para um fosso.
Sem ela, estava mutilado,
não prestava nenhum agrado.
Era triste.
Não comia.
Não bebia.
Só conseguia ver a imagem fixa dela,
com aquele vestidinho xadrez e anteninhas amarelas,
o vento esvoaçava suas vestes vagarosamente,
como se aquele momento estivesse congelando lentamente.
E seu sorriso inteligente,
ria pra mim com uma certeza espetacular.
Era minha rainha.
E hoje sei como é a dor de não a ter aqui.
Apenas sigo a renovar as lágrimas já secas por outras molhadas,
esperando o dia do retorno,
quando sentirei novamente o cheiro do seu perfume,
tocarei sua face macia e branca como a neve,
olharei em seus olhos e encontrarei os meus,
beijarei sua boca como o beija-flor toca as flores,
cantarei para você em todos os tons conhecidos,
darei um abraço apertado como o bicho-preguiça abraça a árvore,
encontrarei minha redenção em ti.
Dançaremos ao som do canto dos pássaros,
e de um piano calmo, com toques refinados.
E não conseguirei desviar os meus olhos dos teus,
pois nada se parece com o teu olhar.
E aqui poderia passar
o resto da noite a lamentar,
o bobo da corte a chorar,
por sua rainha destemida.
Enquadrar e moldurar teu sonhar.
Fixar tua imagem na mente até cegar.
Só não não consigo parar de chorar
tampouco de te amar.
E nesse ritmo frenético posso morrer,
mas também posso esperar.
Pois começo de hoje contar,
os dias as horas os minutos,
esperando a hora de te reencontrar.
Sempre a lembrar,
dos teu sorriso certo
e dos teus olhos nos meus.

Le Clown De Théâtre