domingo, 25 de novembro de 2007

Erros Vitrais

Um parque bem arborizado, climatizado,naturalmente criado.
Ambientes intimistas, bucólicos.
Folhas caídas no chão úmido e coberto de musgo.
Um banco, ligeiramente molhado pelo orvalho.
Senta-se então, com seu jornal.
Tinha a pele enrrugada pelos anos de trabalho e sofrimento,
Cabelos brancos e olhos azuis.
Vestia um jaleco preto, simples e obsoleto, e carregava seu jornal matinal.
Apesar de sua aparência frágil, o velho tinha um ar jovial no olhar.
Lia calmamente as letras tortas de jornalistas infames.
Via os anúncios publicitários e demonstrava certo ceticismo com o olhar.
Após várias páginas viradas, algo prende sua atenção { Ah, o velho e bom poder de persuasão }.
Era um anúncio publicitário que dizia: ''Compre os sonhos Mërk e dê adeus aos seus erros de vidro.''.
Ele leu seguidamente, depois parou e olhou para uma figueira frondosa que estava ali perto.
Pensou em toda sua vida e em todas as roupagens, esteriótipos, ações mal calculadas, escudos e barreiras que ele criou.
Por razões fracas e imundas.
Medo, revolta sem bases teóricas justificáveis.
Aparentemente transtornado, cede uma lágrima sofrida aos erros gramaticais de sua vida e quebra os vitrais de sua mente arrependida.
Joga o jornal no cesto de lixo e,
Sente a lágrima ainda quente no seu rosto.
Começa a caminhar pelas trilhas mal pavimentadas de sua mente calejada por um falso moralismo doente.
Descreve-se então, na realidade e sem metáforas, como uma farsa.
Chega a brisa matutina e seca então a lágrima da farsa,
deixando um sentimento sujo e nostálgico.
E o velho jaz ali no banco, suas mãos frias e arrependidas.
No pedaço de papel guardado no seu bolso esquerdo, escreve:
''Finda-se aqui uma vida. Começa-se outra.''

Le Clown De Théâtre

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Duas Noites

Uma coruja branca,
busca alimento na noite.
Neruda, Saramago, Tolstoy, Pessoa...
Letras tortas.
A busca de clareza, beleza, certeza.
Cinco pessoas, um círculo harmonioso.
Um lápis e um pedaço de papel.
Dois olhos.
Quatro olhos que transformam-se em seis rios transcedentes.
Sentimentos perceptíveis que acalmam.
A emoção dos afagos.
A dúvida e a saudade pós-encontro.
O mártir débil e cego.
O coração palpitante em uma noite doente.
O paladar aguçado.
O gosto de uva e o cheiro floral.
O prazer de uma conversa, um abraço e um beijo.
A mudança brusca de ambiente.
A dúvida do querer e da objetividade de uma busca aparentemente mútua.
A pressão indevida,
corretamente observada e corrigida,
com mais um beijo.
O calor.
A intensidade das ações.
O devaneio, acompanhado de lábios doces e carregado de prazer.
A despedida com gosto de ''quero mais''.
O ''já se foi'' e a desesperança póstuma.
O julgamento.
As lembranças de uma noite prazerosa.
Doce e azedo.
Salgado e amargo.
A alma satisfeita.
O fim falsamente nostálgico.
A cama.
Uma boa noite [pra você].

Le Clown De Théâtre

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Limonada

Portão aberto.
- Mas como? Se a chave está trancada do lado de dentro da porta à esquerda da privada do vizinho da esquina amigo do teu pai que se encotra dentro de um prostíbulo na Rua 16 com a Avenida do Conde?
Queria escrever contos.
Queria escrever poemas e contos.
Nada de romances.
Queria coisas curtas, breves, rápidas intensas, negras, amarelas, sujas, brochantes, apaixonantes, amaldiçoadas e feridas.
Queria uma máquina.
Queria remédios para dormir.
Queria um cigarro.
Agora mesmo.
Queria uma rosa
Morta pelo calor do ódio e orgulho.
Queria comer algo diferente de Miojo à noite depois da aula.
Queria não ser trágico.
Queria ler Neruda.
Queria ser ET.
Queria acabar com as mazelas mundiais,
Queria solucionar as minhas primeiro.
Queria nadar de roupa
Queria ser carpinteiro.
Queria beber com Saramago, Pessoa, Assis, Quintana, Cartola e Noel.
Queria morrer no céu.
Queria ser uma metáfora
Queria não escrevê-las.
Queria um abraço forte e verdadeiro
Queria espadas para matar o amigo carteiro.
- Olá, o que você quer de mim?
- Saber o que quer.
- Quero saber o que queres de mim!
- Quero que me ame profundamente, intensamente, fielmente, tolamente, eternamente. Aceitas?
- Talvez. O que eu ganharia com isso?
- Um coração só teu. Faça o que quiser dele. Mas não tentes enganá-lo. O contrato será registrado no céu, inferno e purgatório. Se quebrar, receberás o castigo.
- Há riscos...
- Aceitas ou não?
Quero fazer 25 anos.
Quero pintar o rosto.
Quero um barco e um banco.
Quero surfar em prantos.
Quero não fazer rimas.
Quero ser niilista.
Quero matar você.
Quero ser narcisista
Quero amar você
Quero ser tolo, mané .
Quero ser frio, calculista.
Quero congelar.
Quero não pontuar esse texto
Quero esquecer o que é vermelho, trevo, frevo
Quero fazer o impossível
Quero a função metalingüística.
Quero....
- Aceitas ou não?

Le Clown De Théâtre

ps:. Aviso: Apatia permanente. Afastem-se ou assumam o risco de tentar a salvação.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Break

Ah, essa escuridão.
Tão saborosa.
Sabor galinha caipira.
- Mãe, faltou energia.
Assim como Dylan nos filmes.
- Um cigarro a mais não te matará.
Sem palavras.
Sem compreensão.
Ah, os pássaros chegaram para alegrar-me.
- Não, são só urubus querendo você, seu lixo.
Calor.
Jurei não falar mais no calor dessa cidade escaldante,
que recebe, às vezes, a alcunha de ''portal do inferno''.
Sim, suporto o calor como faço com minha própria existência.
Sem falar, sem gosto, cheiro (sinusite).
- Não há prazer nisso, guri.
- Aprenda, então.
- Você é um tolo. E um porco chuvinista também.
Mente vazia, sem trocadilhos.
Até as obsuridades de uma mente suja conseguem enganar o rapaz.
Mais um cigarro.
- Não consigo mais olhar pra você e ver o que conseguia ver antes.
- Que bom! Chá?
Eterno dilema.
Abrir a janela?
Ah, ela está aberta há algum tempo.
Esperando o vento certo para, rispidamente, tocar minha face.
Eternamente, esperar.
Creio que ele está perto.
Falta um pouco de força à esse vento.
Sim, ele possui um potencial enorme.
Assoprar?
Não. Deixa ele atravessar minha janela naturalmente.
Apatia.
Temporária.



Le Clown De Théâtre