Hoje não escreverei,
escrevendo.
Sentir um perfume doce em letras e versos,
enquadrados em vidros belos.
Sem querer rimar, rimo o mimo de suas palavras.
Essas palavras sujas de tua timidez corajosa,
Oh senhora das horas.
Leve-me para teu mundo sombrio, carregado de sorrisos marotos
e sombras distorcidas.
Cheio de rosas desbotadas é o teu mundo, Clarice.
A alvorada de tuas palavras, ricas em desesperança concreta e bela,
adentra meu corpo como um vírus.
Ah, Clarice, se soubesses como choro...
Agradeço por ter assassinado meu coração,
o mesmo que você rifou.
Clarice, sempre. Amor.
Le Clown De Théâtre
ps: Texto escrito em homenagem à Clarice Lispector. Segue abaixo, o texto ''Rifa-se um coração'' de autoria da mesma.
Rifa-se um coração.
Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade está um pouco usado,
meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos,
e cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente
que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado,
coração que acha que Tim Maia estava certo
quando escreveu… “não quero dinheiro,eu quero amor sincero, é isso que eu espero…”.
Um idealista…
Um verdadeiro sonhador…
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece,
e mantém sempre viva a esperança de ser feliz,
sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando relações
e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional que,
abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas,
mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado
indicado apenas para quem quer viver intensamente e,
contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida
matando o tempo,defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente que se mostra sem armaduras.
Um órgão que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas:
'' O Senhor pode conferir'', eu fiz tudo certo,
só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer”.
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro
que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que,
ainda não foi adotado, provavelmente,
por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar,
mas vez por outra,constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence seu usuário
a publicar seus segredos e,
a ter a petulância de se aventurar como poeta.
Clarice Lispector
sábado, 27 de outubro de 2007
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Um comentário:
Ela diz com palavras o que nossos olhos tentam, dizer... em v�o...
Clarice faz com que nos percamos em rios de palavras.
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