sábado, 29 de março de 2008

A viagem da Rainha de Vestidinho Xadrez e o Lamento do Bobo da Corte

Até parece que perdi meu olhar
quando ela partiu dizendo um ''até logo'' choroso.
Um ''tevejoembrevemeuamor'' medroso e doloroso,
que flechou meu coração já apaixonado,
mergulhado em amores que nunca tive e que,
por algum motivo
recebi.
Então, quando a vi dobrando a esquina pela última vez,
corri e entreguei meu braço.
-Pra você nunca esquecer de mim.
Então a vi ir embora pela segunda vez.
Dias depois, a sensação de mutilação era evidente.
Sem saber, fui tragado para um fosso.
Sem ela, estava mutilado,
não prestava nenhum agrado.
Era triste.
Não comia.
Não bebia.
Só conseguia ver a imagem fixa dela,
com aquele vestidinho xadrez e anteninhas amarelas,
o vento esvoaçava suas vestes vagarosamente,
como se aquele momento estivesse congelando lentamente.
E seu sorriso inteligente,
ria pra mim com uma certeza espetacular.
Era minha rainha.
E hoje sei como é a dor de não a ter aqui.
Apenas sigo a renovar as lágrimas já secas por outras molhadas,
esperando o dia do retorno,
quando sentirei novamente o cheiro do seu perfume,
tocarei sua face macia e branca como a neve,
olharei em seus olhos e encontrarei os meus,
beijarei sua boca como o beija-flor toca as flores,
cantarei para você em todos os tons conhecidos,
darei um abraço apertado como o bicho-preguiça abraça a árvore,
encontrarei minha redenção em ti.
Dançaremos ao som do canto dos pássaros,
e de um piano calmo, com toques refinados.
E não conseguirei desviar os meus olhos dos teus,
pois nada se parece com o teu olhar.
E aqui poderia passar
o resto da noite a lamentar,
o bobo da corte a chorar,
por sua rainha destemida.
Enquadrar e moldurar teu sonhar.
Fixar tua imagem na mente até cegar.
Só não não consigo parar de chorar
tampouco de te amar.
E nesse ritmo frenético posso morrer,
mas também posso esperar.
Pois começo de hoje contar,
os dias as horas os minutos,
esperando a hora de te reencontrar.
Sempre a lembrar,
dos teu sorriso certo
e dos teus olhos nos meus.

Le Clown De Théâtre

segunda-feira, 10 de março de 2008

A Dor do Velho Pássaro

Ontem fui ao médico,
tentar saber a cura para minha dor sem remédio.
Encontrei um amigo ao longo da Avenida Coelhinho Zé da Silva Qualquer.
Foi tudo muito rápido, acendemos um cigarro cada e nos perguntamos porque diabos sempre nos vimos sentados naquele mesmo banco de praça, fumando cigarros e conversando sempre as mesmas coisas.
Eu já não suportava mais aquilo então disse-lhe que tinha que ir ao médico e saí daquela condição tediosa e por vezes mentirosa para uma sinceridade que sempre tive mas nunca usei.
Segui rumo ao hospital, eu realmente tinha que ir lá. A dor era fatal, não me dava trégua. A cada dia que se aproximava o fatídico momento do meu pássaro vermelho voar para bem longe de minha alma o lamento doía mais.
Eu já não dormia, tampouco comia. À noite, chorava. Um uivo demorado, e lágrimas brotavam como cachoeiras de águas límpidas e tão sinceras que ficavam gravadas para todo o sempre na minha pele. E, até quando estávamos perto um do outro, chorava por dentro um pobre homem fadado à solidão, dentro da escuridão de seu quarto bagunçado. Um velho arruinado, que sempre foi mal-tratado por seus pássaros coloridos antigos e injustiçado por seus erros vitrais. Um senhor de idade que, perto do fim, achou um novo começo.
Chegando ao consultório médico, falei sem hesitar que era um caso crônico e urgente, e perguntei ao doutor se ele poderia receitar alguma droga que fizesse essa dor passar. Com a feição apática, o médico me disse que meu caso era crônico, porém não tão urgente. Disse-me que eu estava sofrendo de algo que os humanos chamam de medodasaudadeouperdadealguémamado. Achei o nome da doença tão grande, complicado e aglutinado que logo perguntei o que poderia fazer se meu passarinho vermelho tinha que voar além-mar.
O doutor então, transtornado ao ver um velho de olhos marejados amar tanto seu pássaro, comoveu-se por fim e disse que eu deveria aceitar, aprender e me adaptar à situação.
A verdade era que o pássaro vermelho também gostava muito do velho senhor, mas tinha que voar em busca de um alimento que ele nunca ofereceu.
Exausto, expressei ao doutor toda minha gratidão pelos conselhos bravos e voltei para casa. Durante o percurso, continuava a sentir a dor, porém não ligava mais.
Decidi amar e só amar (tanto) você, meu pássaro de canto suave e olhos pacíficos. Por você viverei e morrerei todos os dias, esperando vosso retorno.
Deixei então, rolar mais uma (de muitas por vir ainda) lágrima na minha face ressecada pela idade, antes de voar ao encontro da orquestra cinematográfica que fiz pra ela.

Le Clown De Théâtre